Portugal sempre foi um país de emigrantes. Toda a gente o sabe. Desde a época dos descobrimentos ao boom da emigração desde finais do séc. XIX um pouco por todo o mundo, sempre nos voltámos para o exterior. Coincidência ou apenas a prova de que o nosso “condado” é demasiado pequeno?

O perfil do emigrante pode ter mudado, com certeza que sim. Mas será que a motivação subjacente a quem o faz terá mudado assim tanto? Não creio. O motivo foi e sempre será relacionado com a falta de oportunidades para o desenvolvimento profissional e de criação de boas condições de vida familiar. O que outrora foram gerações dedicadas a actividades de capital intensivo como a construção civil, transportes ou agro-pecuária, no passado recente a história diz que tem sido uma importante parte da nossa mão-de-obra jovem e altamente especializada, a fazer as malas. E isso é triste. Mas o que se vive hoje me dia é muito pior que uma simples emigração acelerada.

Olho para trás para os mais de 4 anos desde que me mudei para Londres e vejo no entanto diferenças assinaláveis no contexto que se vive. A começar, e mais importante que tudo, pelo facto de que enquanto eu procurei a mudança assente em convicções pessoais fortes e desejos de experimentar e passar por outras vivências, hoje em dia há toneladas de portugueses a procurar outras paragens porque pura e simplesmente não têm qualquer perspectiva profissional em terras lusas. E isso tanto pode ser a busca do emprego que tarda em aparecer, ou a oportudidade de abraçar o desafio que se realmente dejesa e sempre se procurou.

Por isto é que a meu ver, antes de discutir o papel do emigrante, há que discutir o papel de Portugal como um todo, um país que teima em expulsar jovens talentos, um país que tarda em colocar um termo à continuidade, a “mais do mesmo”. Um país mergulhado numa crise anunciada, uma crise que não vem de agora, não vem de Sócrates como também não veio de quem lhe antecedeu. Só quem não quer ver é que não admite que desde a adesão à União Europeia, era eu criança, que vivemos acima das nossas capacidades. Sempre gastamos mais do que produzimos. Todos os politicos, PS ou PSD, ninguém tem desculpa. E hoje, à beira de novas eleições, pergunto-me se temos mesmo de continuar a viver com as mesmas caras? Porque será que não aparece ninguém diferente, arrojado e inovador? Porque será que ninguém coloca o interesse nacional acima da luta mesquinha por mais ou menos voto?

Será esse papel que resta ao emigrante? Penso que não, pois emigrante que se preze pensará cada vez mais em continuar por fora…

Ricardo Vasconcelos Dias

Londres

Esta entrada foi publicada em n.º 1 - O Papel dos Emigrantes. ligação permanente.

Uma resposta a

  1. PVdF diz:

    Artigo claro e muito bom, Ricardo. Sem dúvida, os males vêem de longe, mas parece que nada está a mudar. As personagens são as mesmas e agora até são filhos dos partidos (com deformação nas juventudes partidárias). Mas tal por isto tudo o emigrante tenha um outro papel, mais interventivo, mais participativo, mais atento.

    Um abraço
    Nuno Margalho, Barcelona

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